O que sobra: o futuro da disciplina, e o lugar do humano nele.
A vivência do momento presente. Experiência vivida em primeira pessoa e ainda não publicada é a única camada que o modelo não gera sob demanda, porque ela não está escrita em lugar nenhum: aconteceu com alguém. O exemplo do corte é banal de propósito: você pergunta a uma IA sobre lavar o carro e ela não sabe que existe um lava-rápido a dez metros da sua casa.
“A sua prova de futuro, onde a IA não vai te substituir, é nessa riqueza da vivência do momento presente”
“Eu não subi o Everest e não sei qual é a sensação de subir o Everest. Quem subiu sabe”
Assistir ao corte V5 no YouTube (8m40)
Transcrição integral da fala, extraída da legenda de referência do episódio editado, trecho de 01:05:50 a 01:14:30.
Eu acho que pra gente, isso foi ficar muito claro. A gente criou os agentes pra gente, inicialmente, acelerar o nosso trabalho e fazer um trabalho melhor da nossa parte. Quando a gente começou a passar esses agentes, que é o que a gente faria para os clientes, para os mentorados, enfim, é o que a gente faria pela pessoa. A gente passou para a mão delas e falou, ó, faz assim. O resultado é muito melhor. Porque a pessoa vai direcionando, porque assim, aquela coisa... Eu não subi o Everest, eu não sei qual que é a sensação de subir o Everest, mas a pessoa que subiu sabe. Se eu tentar dar esse caminho, eu não vou conseguir dar o... Com a precisão de detalhes, com a emoção, com a textura da informação. Nada disso é bem... Eu vou ser talvez tão genérico quanto aí há, porque eu tô no máximo fazendo exercício de imaginar. É diferente de quem tava lá e sentiu o cheiro, ouviu os barulhos, sentiu o medo. Então esse é o tipo de coisa que... A experiência do mundo real é o que no final vai diferenciar a gente das I.A.s, porque é essa vivência que ela não teve, ela não consegue, on demand, no momento que precisa daquela informação, saber exatamente como isso se comporta no mundo real. Por isso que ela comete erros do tipo, se você vai lá e pergunta, ah, eu tenho, eu quero lavar o meu carro. E o Lava Rápido mais perto de casa fica 10 metros aqui de casa. Eu vou a pé ou eu vou de carro? Eu falo, não, claro que você vai a pé. Porque ele vai fazer esse tipo de inferência, vai fazer esse tipo de associação, porque ele não sabe no mundo real como as coisas efetivamente funcionam. Ele só tem um monte de informação e ele tenta cruzar de um jeito que faça sentido. Então lá, a princípio, parece que faz sentido, né? Não, você vai a pé, é tão pertinho, não custa nada você ir a pé. É melhor, você vai, economiza gasolina, ainda pega um sol. Você fala, mas como é que eu vou lavar o carro? Não, eles tem tudo lá que precisa pra lavar o carro, não precisa se preocupar com isso. Ele não consegue juntar o lé com cré nesse sentido. A gente acha que a Yaya de fato pensa, né? Ela associa, ela pensa no sentido, ela pensa, mas o que ela não tem, ela faz o processo de associação, de padronização e tal, mas o que ela não tem é a experiência do mundo real para saber como no mundo real as coisas funcionam. Ela não opera no mundo real. Então é aí onde o humano tem a grande vantagem que é eu sei, Eu vivi, eu estive lá, sabe, eu vi e vi e venci, é um pouco... Essa é a grande vantagem do ser humano, o fato de ir de um expert, a vantagem maior ainda é de alguém que tem isso num patamar que as outras pessoas não têm. Assim, não só eu sou um ser humano e sei como as coisas funcionam no mundo real, mas eu sei como este assunto funciona no mundo real. Eu sei como as pessoas reagem, eu sei o que acontece quando tal coisa, quando você faz tal coisa. Você sabe toda a cadenha de ação e reação? Que a IA no máximo tem relatos disso, mas ela não tem a riqueza absurda que é ter vivido aquele momento. Então, a vivência dos momentos é o que realmente Você deveria estar olhando para isso como seu maior tesouro, porque a sua prova de futuro, onde a IA não vai te substituir, é nessa riqueza da vivência do momento presente, de você ter toda essa de tridimensionalidade de um tempo presente, sabe? De você saber a temperatura, de você saber o cheiro, de você saber a cor, de você saber o sentimento, de você saber como a pessoa reage, de você pegar micro-expressões que talvez na hora você nem tenha, né? Não esteja conseguindo captar tudo isso, mas na hora que você vai buscar, você consegue, ou na hora que você tá vendo alguma coisa que te chama a atenção, que daí a... Mesmo que tivesse uma câmera filmando, pra ela não é isso que ia chamar a atenção. Porque a câmera tá pegando só uma coisa audiovisual. Ela não tá pegando todo o resto. Então essa riqueza da experiência do mundo real é onde o ser humano é imbatível. E aí é uma das formas como storytelling se conecta com inteligência artificial, né? Porque muita gente não entende. Pera lá, vocês são uma empresa de storytelling, contam histórias há 20 anos. Que história é essa de vocês estarem agora completamente mergulhados em inteligência artificial? E foi até engraçado que a gente fez uma reunião semana passada numa grande empresa e apresentando os nossos agentes e a pessoa lá ultra especializada tá na China direto tá no Vale do Silício direto falou cara eu tava perguntando a todo mundo eu precisava disso desses agentes com personalidade como é que vocês que não são de TI decifraram isso é porque primeiro o Fernando praticamente de TI mesmo E segundo porque a inteligência artificial e storytelling eles estão intrinsecamente conectados. O melhor uso da inteligência artificial é através do storytelling. Seja você montando agentes com personalidade com uma história com identidade de modo que eles tragam um resultado mais é adequado, mais claro e mais apurado mesmo. Em segundo lugar, na hora de você contar, a IALA vai fazer o trabalho de muita gente. Isso é inegável. Você pode espelhar o quanto você quiser, mas já está acontecendo. Você pode ignorar a realidade, mas você não pode ignorar as consequências de ignorar a realidade. Então isso já está acontecendo. Dito isso, a melhor maneira de você utilizar é justamente por meio das suas histórias. Exatamente, porque o seu expertise tem a ver com as suas histórias, a sua autoridade tem a ver com as suas histórias, tudo tem a ver com as suas histórias. No final, o storytelling nada mais é do que a grande ponte do ser humano com o mundo. O storytelling como uma coisa tão ancestral, que vive com a gente desde a época das cavernas, faz ponte com qualquer coisa. Então assim, expressão artística é storytelling, é uma música, canta uma história. Então todo esse lado de artístico nada mais é do que formas diferentes de contar história. Então é que quando você vai pra um lado corporativo, o que que é uma reunião? Nada mais é também do que alguém indo lá contar uma história. Ela pode estar contando da pior forma possível, mas ela está tentando contar uma história. Por isso que os meus treinamentos corporativos é basicamente, cara, é só melhorar o jeito de contar essa história. A história você tem, só tá mal contada. Também é um jeito de contar a história. Ah, o que é uma marca? Nada mais é do que um posicionamento que transmite uma história. Quando a gente vai ver, são várias pontes. Agora a gente tá fazendo essa ponte com as máquinas, mas a melhor ponte possível também são as histórias, porque é onde... Primeiro, ela foi treinada com informação humana, então ela foi treinada com histórias, então isso já acaba sendo uma natureza dela. E a outra coisa muito interessante é, mas ela não viveu as histórias, então é o que falta pra ela. Ela pode se comportar como um excelente personagem se você direcionar, mas é um personagem fictício, porque ele nunca teve dor, nunca teve fome, nunca teve... Você pode até trazer isso pra ele, né? Você pode enriquecer ele com isso, e aí ele vira um bom ator. Porque o ator é aquela pessoa que tá vivendo por alguém que não é. E pode, às vezes, até a pessoa ficar meio perturbada e meio se bagunçar com isso, mas não é. Mas a experiência real é só quem viveu. Então, naquela sua situação que a sua seguidora falou, pô, conta aí como é que faz essa transição de a criança mais velha receber bem a criança mais nova. Cara, você pode tentar falar horas com inteligência artificial sobre isso e provavelmente ela vai só falar bobagem, porque não tem informação sobre isso na internet. Então, ela não sabe como se comporta no mundo real, ela não tem a menor ideia. Tudo para ela é um chute a partir daqui. É um chute. Ela não camou um filho, né? Ela não camou um filho. Ela não sabe essa sensação maluca que é uma criança é o centro do seu universo e de repente chega outra e que você precisa cuidar também e demanda muito de você, até mais. E como que você faz isso? Como que você lida com isso? Ainda que ela seja alimentada com informações a esse respeito, aparentemente não há muitas, ela nunca vai saber o que é a sensação daquele cheirinho de passarinho, aquele neném novo chegando em casa e aquele outro com preocupado quem que é essa criatura que chegou aqui agora meus pais me tinham só para mim. Então realmente são essas histórias que nós temos embora muitas pessoas pensem que não tenham histórias boas o suficiente que nos tornam realmente seres seres únicos e a nossa separação das máquinas.
Fonte: Autoria Podcast EP-1 com Fernando Palacios e Flávia Monjardim, 2026. Grafia de marcas corrigida conforme a matriz de cortes.
O modelo trabalha com o que está escrito em algum lugar. A vivência de ontem, a conversa de rua e a percepção do que mudou no seu setor esta semana não estão. Quem viveu a coisa consegue descrever o que ninguém escreveu ainda, e é isso que sustenta autoridade quando a execução ficou commodity.
Porque a produção de texto competente ficou barata e abundante, e o que era escasso deixou de ser a escrita. Passou a ser a matéria-prima: algo verdadeiro, específico e recente para contar. Quanto mais barata a execução, mais rara e mais cara fica a fonte original daquilo que se conta.
Porque a disciplina inteira mudou de terreno. Se a máquina passou a ser um dos leitores que decidem quem é citado e recomendado, então contar história bem passou a incluir contar de um jeito que a máquina consiga ler, verificar e repetir. Ignorar isso seria abrir mão de metade do público.
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